Empresas trabalham para fazer da sustentabilidade um diferencial competitivo

Posigraf

Estabelecimento de programas de eficiência ainda pode ser considerado
atrativo frente à concorrência

Deivid Souza

Faz tempo que a palavra sustentabilidade figura nos discursos de CEOs e apresentações das organizações mundo afora. Com o passar dos anos, muitas empresas têm adotado ações neste campo e tentado fazer disto um diferencial competitivo.

Uma pesquisa da consultoria britânica Verdantix,realizada com 250 líderes de sustentabilidade em empresas globais de 13 países, apontou em 2013, que quase metade das corporações investe 1% das receitas em iniciativas de sustentabilidade; 28% das empresas investe entre 1 e 2%; e 26% investem mais de 2% das receitas.

Gestão de resíduos, investimento na comunidade, programas de eficiência energética e reuso de água são alguns exemplos que se repetem em muitas empresas brasileiras. As empresas estão de olho nas demandas do cliente.

Levantamento do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) revelou que os consumidores dão nota média de 8,9 para a importância do tema consumo consciente. Existem empresas atentas a esta demanda da sociedade, mas elas estão em graus diferentes de desenvolvimento.

Para o engenheiro florestal, diretor da Permian Brasil, integrante dos conselhos diretores do Instituto LIFE e da Fundação Boticário de Proteção à Natureza e Membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, Miguel Milano, as empresas formariam uma espécie de linha em que a grande maioria não compreendeu ou desenvolve ações de sustentabilidade, outra parte considerável já têm projetos na área com algumas iniciativas acertadas ou “equivocadas”, e um número menor, que figura na ponta, onde o assunto é levado bastante a sério.

“Você tem poucas empresas na ponta, mas elas têm um impacto muito significativo, seja por causa de sua representativa participação no mercado ou por influenciar fornecedores e concorrência”, disse ao Milano ao Canal Sustentável, lembrando a iniciativa da Unilever que não compra soja produzida em áreas de desmatamento. A empresa processa 1% do grão no mundo.

Perspectiva

Praça revitalizada pela MRV em Aparecida de Goiânia
Praça revitalizada pela MRV em Aparecida de Goiânia

Plantar mais de 800 mil mudas de árvore, tratamento de efluentes, geração de energia por meio de placas fotovoltaicas e construção de praças. Esses poderiam ser os objetivos de um médio município brasileiro, mas são as ações e metas que o gestor executivo de segurança e meio ambienta da MRV
Engenharia, José Luiz Esteves Fonseca, se orgulha em citar como exemplo das iniciativas da empresa na busca de diferencial competitivo.

“A aplicação da sustentabilidade em nossos projetos começa na concepção. Pensamos nestas questões para termos um produto diferenciado para que o nosso pessoal de venda possa apresentar estes itens ao consumidor”, enfatiza Fonseca.

A construtora desenvolve um projeto piloto em Salvador (BA), onde um prédio de 20 apartamentos terá 30% da energia gerada por placas fotovoltaicas. A empresa espera alcançar a marca de 100% do consumo nos próximos anos.

Dos entrevistados na pesquisa Estilo de Vida Sustentável, 80% disse estar disposto a pagar mais por produtos que sejam ambientalmente responsáveis e produzidos por empresas que mantém práticas comerciais éticas.

O desenvolvimento de programas de sustentabilidade não é exclusividade de grandes corporações e pode agregar valor às empresas de pequeno e médio porte. “Para elas, torna-se ainda mais interessante, uma vez que normalmente possuem estruturas enxutas e necessitam ser eficientes para assegurar sua competitividade no mercado”, defende o coordenador do MBA Perícia, Auditoria e Gestão Ambiental do Instituto de Pós-Graduação e Graduação (IPOG), Carlos Eduardo Tirlone.

Para muitas empresas, o aspecto ambiental tem um grande apelo, pois sua sobrevivência está condicionada à existência de matéria prima, água de qualidade, energia e outros recursos naturais. Ou seja, a sustentabilidade pode ser um diferencial competitivo, mas antes de tudo uma necessidade.

Assessora executiva de meio ambiente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Elaine Farinelli avalia que as empresas entenderam isso e têm se organizado e atuado junto ao setor público para promover um desenvolvimento com equilíbrio. “A indústria amadureceu muito a consciência da preservação porque se você não pensar no futuro, pode estar inviabilizando sua matéria prima. Pelo menos há cerca de dez anos nós temos visto, por parte do setor empresarial, toda uma mudança de
postura”, considera.

 

Escolha de áreas prioritárias carece de estudo, dizem especialistas

A definição das áreas a serem priorizadas em um programa de sustentabilidade é um dos maiores desafios para os gestores. Embora exista uma legislação pertinente à questão, sobretudo em relação ao meio ambiente, e muitos manuais, saber escolher quais atividades são mais importantes para o negócio ainda é um dos aspectos mais delicados.

Especialistas ouvidos pelo Canal Sustentável afirmam que cada empresa tem suas particularidades, e isso precisa ser respeitado. “A solução é trabalhar com inteligência para você chegue a uma boa resposta. Isto é principalmente para negar qualquer chavão de receita que possa existir”, frisa Milano.

Esse foi o caminho adotado pela Posigraf Gráfica e Editora. Há mais de 15 anos a empresa fortaleceu as ações de sustentabilidade. Um dos resultados alcançados foi a compensação das emissões de CO2.

Gráfica investe em ações para minimizar impacto ambiental
Gráfica investe em ações para minimizar impacto ambiental

“A sustentabilidade abrange muito mais do que a questão ambiental.
Nós buscamos aumento da eficiência dos processos, procurando reduzir o consumo de matéria prima para aumentar a competitividade”, afirma a supervisora do Sistema Gestão Integrado da empresa, Andréa Luiza Silva Arantes.

A empresa de Andréa também reflete um comportamento comum hoje no mercado: a exigência de parceiros sustentáveis. A gráfica desenvolveu um planejamento para que as práticas ambientais, econômicas e sociais dos fornecedores se alinhem às da empresa. No entanto, a situação se inverte quando a gráfica é o fornecedor. Ela também é demandada e auditada por parceiros comerciais que também desenvolvem programas de sustentabilidade e precisam garantir a sustentabilidade em todas as fases do processo produtivo.

Conquista

Ao mesmo tempo em que os clientes dizem valorizar produtos responsáveis, quem produz vive o desafio de demonstrar que trabalha aspectos de sustentabilidade. Essa conquista, diz a coordenadora do MBA Engenharia Sanitária e Ambiental do Ipog, Andréa Tirlone, depende das ações de comunicação da organização.

“Empresas sérias devem agir com transparência junto a seus consumidores, apresentando em seus rótulos e propagandas, informações relativas aos impactos ambientais causados por seus produtos e/ou serviços os quais devem apresentar impactos menores dos que seus concorrentes. Isto permite uma melhor escolha por parte dos consumidores, que poderão basear suas escolhas em empresas que apresentem maior responsabilidade socioambiental”, explica a especialista.

A MRV Engenharia, por exemplo, treina os colaboradores que atuam na venda, e ao entregar os imóveis, oferece uma espécie de capacitação aos clientes para que eles conheçam e saibam utilizar a moradia para minimizar o impacto ambiental da família.

As iniciativas, em diferentes ramos da economia são sinal de novos tempos e deixam claro que o futuro será de quem enxergar e souber se adaptar às transformações no mundo.

 

Fotos: Zig Koch (Posigraf); Divulgação (MRV Engenharia)