Taxa de crescimento de veículos é maior que de pessoas em Goiânia

Pedestres e ciclista cercados por veículos automotores. Motoristas: aprisionados. Foto: Wesley Costa

Pedestres e ciclista cercados por veículos automotores no centro da Avenida 85. Motoristas: aprisionados em carros no trânsito caótico da Praça do Ratinho, Setor Sul, na capital. (Foto: Wesley Costa)


Cultura da motorização acelera violência no trânsito, poluição do ar e desequilíbrio social. Especialistas defendem que educação é essencial para transformar realidade

Deivid Souza

O número de veículos nas ruas de Goiânia aumenta a uma taxa superior à da população. O crescimento amarra a velocidade dos deslocamentos, mas acelera a poluição do ar e a violência no trânsito. No ano de 2015 a taxa de incremento da população foi de 1,25%, enquanto a quantidade de carros, motocicletas e caminhões cresceu 1,55%. A população estimada de Goiânia atualmente é de 1.448.369 habitantes, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os veículos somam 1.163.121 unidades e para cada novo morador que nasce ou chega a Goiânia quase um carro é colocado nas ruas.

Essa frota, comandada por motoristas que nem sempre respeitam o próximo, provoca um grande número de acidentes. Só em 2015, foram 221 óbitos. Outro grande contingente tem a saúde afetada pela poluição do ar, já que apenas 74 veículos têm motores movidos à energia elétrica, o que não chega a 0,01% da frota.

 

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Além das mortes violentas, o número de pessoas mutiladas – a maioria delas jovem – também precisa ser mencionado. Essas ocorrências influenciam negativamente na sustentabilidade social por meio da desestrutura familiar originada pelos óbitos e aumento dos gastos públicos com tratamento das vítimas. Esta não é uma questão exclusiva da capital. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) calcula em R$ 40 bilhões os gastos anuais com acidentes de trânsito ocorridos em rodovias. O valor é superior à arrecadação de impostos do estado de Goiás (R$ 39,1 bilhões – 2015).

 

Motoristas, motociclistas e pedestres mais educados poderiam reverter a situação. “Nós ganharíamos muito com isso, inclusive um sistema de saúde menos sobrecarregado. Hoje, entre 70% e 80% dos leitos estão ocupados por pessoas que sofreram acidentes, que têm uma reabilitação lenta. Há também a questão do abalo da família. É um custo muito alto para todos nós, independente de se envolver ou não no acidente, a qualidade de vida cai”, avalia a doutora em transportes e professora do Instituto Federal de Goiás (IFG), Patrícia Margon.

 

Arte: Deivid Souza
Artes e gráficos: Deivid Souza

 

ONU

A relação entre trânsito e sustentabilidade é clara para a Organização das Nações Unidas (ONU) que incluiu entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) uma meta de redução em 50% das mortes e traumatismos causados pelo trânsito até 2020.

O objetivo é evitar que histórias como a do motorista José Ailton Correa Costa, de 39 anos, se repitam. Ele capotou o carro ao “dormir” ao volante em setembro de 2015, quando voltava das proximidades de Alvorada do Norte-BA – onde trabalhava na construção de uma linha de alta tensão – para Cristalina-GO, onde morava. “A condição financeira isso mudou muito. Hoje em dia eu tive que voltar para a casa dos meus pais, eu não tenho condições de arcar com aluguel e pessoas para cuidar de mim. Eu dependo 100% de pessoas para cuidar de mim”, afirma.

O ato de dirigir com sono afetou a vida de toda família. Por causa do acidente, o pai e a mãe de Costa mudaram para Goiânia, onde ele faz tratamento no Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer) e sobrevive com um benefício do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) equivalente a um salário mínimo.

Tragédias

Coordenadora de Vigilância das Violências e Acidentes da Secretaria Estadual de Saúde (SES), Maria de Fátima Rodrigues, explica que este é um problema grave de saúde pública. “Há um adoecimento das próprias famílias quando perdem um ente querido. São comuns casos de depressão. É imensurável o dano social que fica, inclusive a desestrutura do lar, que às vezes perde seu o provedor”, acrescenta.

 

Investimentos e educação precisam estar juntos

Especialista em urbanismo defende que projetos sejam técnicos 

 

Motociclista desrespeita direito de deficientes na Avenida Anhanguera(Foto: André Costa)
Motociclista desrespeita direito de deficientes na Avenida Anhanguera (Foto: André Costa)

Para contribuir com a sustentabilidade social, especialistas defendem que é preciso aprimorar a mobilidade, investindo prioritariamente no transporte público de alta capacidade como ônibus, trem e metrô. A ideia é que com isso diminuam os veículos em circulação, acidentes, poluição e gastos de saúde.

Para a vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO), Maria Ester de Souza, os projetos a serem desenvolvidos precisam ter foco no bem estar da população. “Temos uma gestão que é política apenas, e as pessoas que decidem fazer um investimento em mobilidade não seguem um viés técnico para as escolhas. O olhar dele está relacionado ao interesse político”, critica.

Maria Ester considera que as ações dos gestores públicos têm efeitos pedagógicos e contribuem para que as pessoas tenham mais qualidade de vida.

A especialista afirma ainda que o entendimento e a aplicação de termos simples como ‘mobilidade humana’ podem transformar os espaços urbanos. “O termo humano vai ajudar muito os prefeitos e as pessoas a entenderem que quando se tratar de um plano de mobilidade, temos que pensar na pessoa que vai de casa até o ponto de ônibus caminhando, se locomovendo em uma cadeira de rodas ou carregando um carrinho de bebê. Elas têm direito a calçadas acessíveis, onde possam andar minimamente em condições seguras”, defende.

 

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Cena de trânsito parado se repete no Setor Marista no encontro da Rua 1.122 com a Avenida 85. (Foto: Wesley Costa)

 

Para a presidente da Comissão Especial de Psicologia do Trânsito do Conselho Regional de Psicologia 9ª Região Goiás (CRP-09 Goiás), Simone Minasi, é fundamental educar a população, não falando apenas de regras de circulação, mas respeito ao outro. “Eu acredito na formação continuada e a partir dos sete anos de idade. A formação não pode se limitar a essa educação ameaçadora, teria que ser uma orientação preventiva sobre os riscos e as obrigatoriedades”, defende.

Prova que a educação pode transformar o trânsito é o uso do cinto de segurança. O item se tornou obrigatório no Brasil há 18 anos, e de lá para cá milhares de vidas foram salvas. “Hoje você entra no carro e coloca o cinto, é automático”, exemplificou Simone ao Canal Sustentável.

Consciência

É com muito cuidado que a bancária, Aliny França Silva, de 28 anos, sai de casa todos os dias em direção ao trabalho. Atenta aos retrovisores e ao velocímetro, ela dá o exemplo, cuidando até dos atos que muitos não levam a sério como o uso da seta.  “Eu considero importante porque o motorista que vem atrás precisa se orientar, e saber o que o motorista da frente vai fazer, é importante também para evitar batidas”, conta.

Tanta cautela tem grandes vantagens. Ela nunca foi multada, renova o seguro veicular com desconto, e o mais importante: preserva a vida e a sustentabilidade social. (Deivid Souza)

 

 

Esperança: educação e lei secam mortes no trânsito da capital

Número de vítimas caiu 24% em Goiânia entre 2013 e 2015

 

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Especialistas consideram que a maior rigidez da Lei Seca, modificada em 2012, deu novo fôlego às ações educativas e de fiscalização. A resposta foi rápida. Entre 2012 e 2013, o número de óbitos por vítimas de acidentes de trânsito passou de 44.812 para 42.266, redução de 2.546 mortes.

“Eu penso que essa lei foi muito bem formulada. Eu tenho algumas críticas às formas de fiscalização, mas a Lei Seca tem um impacto muito grande nessa redução. Um dos aspectos positivos é a fiscalização que foi ampliada nos estados”, considera Patrícia Margon, especialista do IFG.

Dados da Delegacia Especializada em Investigações de Crimes de Trânsito de Goiânia (Dict) também apontam decréscimo nos óbitos e aumento no número de autuações por embriaguez (Vide gráfico acima). O número de vítimas fatais em acidentes de trânsito na capital caiu 24,4% entre 2013 e 2015. Pelo menos 70 vidas foram poupadas.

Considerando que cada atendimento a vítima de trânsito no Hospital de Urgências de Goiânia custa aproximadamente R$ 50 mil, as 70 vidas salvas significam pelo menos R$ 3,5 milhões a menos na despesa.

 

Alunos da rede pública estadual participam do Detranzinho. (Foto: divulgação Detran)
Alunos da rede pública estadual participam do Detranzinho. (Foto: divulgação Detran)

 

Os resultados não vieram de graça. Fiscalização e educação têm andado de mãos dadas em Goiás. As blitzen da Balada Responsável, coordenadas pelo Departamento Estadual de Trânsito de Goiás (Detran-GO), foram intensificadas desde 2012. Só este ano, entre janeiro e agosto, 44 mil pessoas foram abordadas. Além do trabalho educativo com distribuição de panfletos e orientação verbal, os infratores receberam notificações por infração de trânsito. Elas somaram 15 mil no período.

Outra ação que aposta na educação para dar sustentabilidade ao trânsito é o Projeto Detranzinho, promovido pelo Detran-GO, que há quatro anos busca incentivar crianças e adolescentes a tornarem a circulação de pessoas mais humana e segura. As ações educativas atendem estudantes das redes pública e privada.

Nesta tendência, que precisa ser mais acentuada, caminhamos para um trânsito mais educado e que proporcione mais harmonia na circulação das pessoas, com respeito, segurança e gentileza para contribuir com a sustentabilidade social. (D.S.)